Um arquivo ou uma biblioteca guarda sobretudo papel, e o papel reage ao ar que o rodeia. A temperatura, a humidade relativa, a luz e a limpeza do ar decidem, em grande parte, durante quantos anos uma coleção se mantém legível e utilizável. Este guia reúne valores de referência publicados por instituições do setor, explica porque é que a estabilidade pesa mais do que um número exato e mostra onde entram as estantes, as caixas e a organização do depósito.
Responde ainda de forma direta à pergunta que mais se ouve: qual é a temperatura e a humidade ideais para um arquivo? A resposta honesta é que não há um valor único. As fontes consultadas apontam, para o papel, temperaturas entre cerca de 18 e 22 ºC e humidade relativa entre 30 % e 55 %, conforme a instituição e o tipo de suporte. O que todas defendem é conhecer o seu espaço, medir e evitar variações bruscas.
Porque é que o ambiente do depósito conta tanto
A conservação preventiva consiste em atrasar a degradação das coleções sem mexer nos documentos: age-se no ambiente, no armazenamento e nos hábitos de quem os manuseia. É mais barata do que o restauro e protege todos os documentos ao mesmo tempo, em vez de um de cada vez.
Um estudo da Universidade de Coimbra sobre a casa-forte da Biblioteca Geral refere que existe algum consenso em torno de temperaturas entre 18 e 22 ºC e humidade relativa entre 45 % e 55 % para acervos bibliográficos, mas ressalva que não existem propriamente valores ideais, porque cada espaço é diferente. Por isso, o primeiro passo não é comprar equipamento: é medir durante um ciclo completo de estações.
O material da Direção Regional do Arquivo e Biblioteca da Madeira acrescenta um ponto muito útil para Portugal: o controlo deve equilibrar a natureza das coleções com as condições climáticas locais, já que em algumas regiões do país a humidade relativa exterior ronda os 70 %. Um depósito junto ao mar e um depósito no interior não têm o mesmo ponto de partida.

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Os quatro fatores que decidem a vida do papel num arquivo ou biblioteca. Temperatura: um consenso de 18 a 22 graus Celsius para acervos bibliográficos, segundo a Universidade de Coimbra, e 18 graus para papel em depósito, segundo a Direção Regional do Arquivo e Biblioteca da Madeira. Humidade relativa: entre 30 % e 55 %, conforme a fonte e o suporte, com 50 % mais ou menos 5 % para o papel em depósito. Luz: 10 a 50 lux para materiais em papel, segundo o guia do Sri Lanka, e 0 lux para microfilme. Ar e limpeza: limpar o pó com regularidade e escolher materiais de estantes e caixas que não libertem partículas. A regra de ouro é a estabilidade: evitar oscilações pesa mais do que acertar num número exato.
Temperatura e humidade: valores de referência
A tabela abaixo reúne, lado a lado, as referências que encontrámos em fontes públicas. Não são normas obrigatórias nem substituem as recomendações do organismo que tutela o seu arquivo: servem para perceber a ordem de grandeza e para preparar a conversa com o responsável pela conservação.
| Fonte e suporte | Temperatura | Humidade relativa | Luz |
|---|---|---|---|
| DRABM – papel em depósito | 18 ºC | 50 % (± 5 %) | — |
| DRABM – fotografia a preto e branco | 17–19 ºC | 30–40 % | 0–50 lux |
| DRABM – microfilme | 2–4 ºC | 20–30 % | 0 lux |
| Guia para bibliotecas do Arquivo Nacional do Sri Lanka – papel | cerca de 18 ºC | 30–50 % | 10–50 lux |
| Universidade do Arkansas – coleções em papel | 18–21 ºC (65–70 ºF) | 30–50 % (± 5 %) | — |
| Universidade de Coimbra – acervos bibliográficos (consenso) | 18–22 ºC | 45–55 % | — |
Valores retirados de materiais públicos de cada instituição (a DRABM num cartaz de parâmetros de preservação); confirme sempre na fonte original e com o organismo que tutela a sua coleção. A norma ISO 11799 e o relatório NISO TR01-1995 também tratam o ambiente de armazenamento.
Repare que o intervalo de humidade para o papel vai dos 30 % aos 55 % consoante a fonte, e que fotografia e microfilme pedem condições mais frias e mais secas do que o papel. Um depósito que guarde vários suportes tem de decidir se os separa em zonas ou se trata os documentos mais sensíveis com soluções próprias.
O gráfico mostra a diferença entre suportes. A mensagem prática é simples: antes de fixar valores, saiba o que guarda. Um arquivo municipal com processos em papel, plantas e fotografias tem necessidades diferentes das de uma biblioteca escolar com livros de leitura corrente.
Estabilidade é mais importante do que o número exato
O guia de conservação da Universidade do Arkansas sublinha que a ausência de oscilações dentro de um intervalo e as médias a longo prazo são mais importantes do que uma temperatura ou uma humidade exatas. Em termos práticos, um depósito que ande sempre nos 50 % é melhor do que outro que passe de 30 % para 65 % em poucos dias, mesmo que ambos tenham o valor «certo» em certos momentos.
- Meça antes de agir: um registador de temperatura e humidade por zona, durante pelo menos um ano.
- Procure a causa das oscilações: janelas, sistemas de ar condicionado que ligam e desligam, canalizações, portas para o exterior.
- Evite correções bruscas: mudanças rápidas de valores podem ser mais agressivas do que um valor ligeiramente fora do intervalo.
- Registe e reveja: os dados só servem se alguém os lê periodicamente.
Luz, poeira e qualidade do ar
A luz degrada o papel, as tintas e as fotografias, e o efeito acumula-se. Por isso, os materiais de referência pedem níveis baixos nas zonas de depósito: o guia do Sri Lanka indica 10 a 50 lux para materiais em papel e o cartaz da DRABM sugere 0 a 50 lux para fotografia a preto e branco e 0 lux para microfilme. Na prática, o depósito deve estar às escuras quando ninguém lá trabalha, com luz acesa só durante o uso.
- Evitar a luz solar direta sobre estantes, caixas e mesas de consulta, com estores, películas ou posicionando o mobiliário longe das janelas.
- Acender as luzes do depósito só quando é preciso, e usar sensores de presença onde fizer sentido.
- Limpar o pó com regularidade e com os materiais certos, porque o pó retém humidade e serve de alimento a pragas.
- Manter o depósito sem comida nem bebidas, e inspecionar sinais de insetos ou de bolores em cada visita.
A qualidade do ar também conta: poeiras, vapores e gases de materiais de construção, de tintas ou de produtos de limpeza podem afetar o papel. Quando se renova um depósito, convém perguntar que materiais são usados em estantes, caixas e acabamentos, e deixar ventilar o espaço antes de nele colocar a coleção.

Estantes, caixas e circulação: o que o mobiliário pode fazer
O mobiliário não substitui o controlo do ambiente: uma estante não baixa a humidade de uma sala. Mas escolhe-se bem ou mal, e a escolha influencia a facilidade de limpar, de arrumar, de inspecionar e de proteger os documentos do dia a dia.
- Acabamento estável: estantes metálicas com pintura de qualidade são fáceis de limpar e não largam partículas de madeira ou colas.
- Caixas de arquivo adequadas: protegem da luz e do pó e evitam o contacto direto entre documentos. O catálogo de consumíveis para bibliotecas e arquivos tem caixas e materiais de conservação.
- Nada no chão: as caixas devem ficar sempre acima do pavimento, para as proteger de pequenas fugas de água e da limpeza.
- Prateleiras reguláveis: adaptam-se a formatos diferentes sem obrigar a dobrar, empilhar em excesso ou forçar os documentos.
- Corredores livres: espaço para consultar com as duas mãos e para pousar a caixa em segurança, longe de canalizações e radiadores.

Estas decisões fazem parte do projeto do espaço, e não de uma compra de última hora. Num estudo bem feito, a distribuição das estantes, a largura dos corredores, a iluminação e a localização dos documentos mais consultados são pensadas em conjunto.

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Do chão ao teto, cada nível conta. Primeiro, manter as estantes longe da luz solar e de tubos e radiadores. Segundo, usar caixas de arquivo adequadas, que protegem da luz e do pó. Terceiro, escolher prateleiras reguláveis, para que cada formato fique no seu lugar. Quarto, não deixar nada no chão: a prateleira mais baixa fica acima do pavimento. Os corredores devem estar livres, para consultar com as duas mãos. Nas estantes compactas, convém confirmar a carga do pavimento com um engenheiro de estruturas. A rotina recomendada é abrir, arejar e inspecionar o depósito duas vezes por ano.
Arquivo compacto: mais capacidade, mais cuidados
As estantes compactas são estantes móveis sobre carris, com manípulos, que aumentam significativamente a capacidade de arquivo, porque eliminam a maior parte dos corredores fixos. É a solução habitual quando o arquivo está a crescer e o edifício não. O Arquivo Distrital de Braga é um exemplo de projeto com estantes compactas móveis com manípulos.
Mas um depósito compacto pede atenção a alguns pontos, que convém tratar logo no início do projeto:
- Carga no pavimento: as estantes compactas concentram muito peso numa área pequena. A capacidade do pavimento deve ser confirmada por um engenheiro de estruturas antes de decidir a solução.
- Ventilação entre as estantes: quando as estantes estão fechadas, o ar circula menos entre elas. Convém definir uma rotina para as abrir e arejar, e acompanhar a humidade dentro do depósito.
- Humidade e pragas: corredores fechados escondem problemas. Uma inspeção periódica com as estantes abertas permite ver sinais de bolor ou de insetos cedo.
- Segurança de utilização: sistemas de bloqueio e boas práticas de manobra protegem as pessoas e os documentos.
Quando bem planeado, o arquivo compacto liberta área útil para o que também protege a coleção: uma zona de consulta separada do depósito, uma bancada de trabalho e um espaço de quarentena para documentos que chegam. Veja também o artigo Estantes compactas: mais espaço, mais organização.

Rotina de monitorização: o que fazer e com que frequência
Um plano simples e cumprido vale mais do que um plano ambicioso que ninguém segue. A proposta abaixo serve de ponto de partida e deve ser ajustada ao seu arquivo e à sua equipa.
- Todos os dias ou todas as semanas: verificar visualmente o depósito (água, cheiros, luzes acesas, janelas) e anotar leituras dos registadores.
- Todos os meses: descarregar os dados dos registadores e ver se há oscilações; limpar as superfícies mais expostas ao pó.
- Duas vezes por ano: inspecionar as caixas e as estantes à procura de bolor, de insetos e de danos; abrir e arejar as estantes compactas.
- Uma vez por ano: rever o plano, os valores de referência e as necessidades de espaço com quem gere o arquivo.
A norma ISO 11799 trata das condições de armazenamento de materiais de arquivo e de biblioteca a longo prazo, e o relatório NISO TR01-1995 propõe diretrizes ambientais para o armazenamento de registos em papel. Podem servir de apoio quando se projeta ou renova um depósito, sempre em articulação com o organismo que tutela o arquivo.
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Fonte: Culturalis Borgeaud
Lista de verificação: o seu depósito está bem preparado?
Use a lista abaixo para fazer um primeiro diagnóstico. Não é uma auditoria nem substitui um relatório de conservação: serve para ver rapidamente o que já está feito e o que falta.
Ferramenta
Diagnóstico rápido do depósito
Assinale o que já se verifica no seu arquivo ou biblioteca.
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Lista orientadora, sem valor de auditoria. Para um diagnóstico completo, consulte um especialista em conservação.

Passos seguintes
Se tem um arquivo ou uma biblioteca para renovar ou ampliar, estes são os passos mais úteis, por esta ordem:
- Medir o ambiente do depósito durante um ciclo completo de estações.
- Identificar os suportes que guarda e os valores de referência que lhes correspondem.
- Corrigir as causas das oscilações antes de comprar equipamento novo.
- Planear o mobiliário em conjunto com a circulação, a luz e a ventilação.
- Definir uma rotina de monitorização e quem a cumpre.
A Culturalis acompanha cada projeto do primeiro estudo à montagem final, com equipa própria. Pode ver projetos concretos, consultar os catálogos e os móveis para bibliotecas, ou contactar-nos para um estudo do seu espaço.




